18 de dezembro de 2011

Café para dois, porfaah... esquece


Em resposta ao meu amigo Arthur Moura, com sua belíssima crônica Café para um, por favor.


Não era a primeira vez que entrava ali, naquele Café. Porém a ultima já fazia alguns meses. Costumava pedir um expresso toda manhã, antes de viajar para visitar minha família. Havia voltado uns três dias atrás; mas como tudo mudou! Assim como eu, muitos viajaram.
A vizinhança estava diferente, com algumas pessoas acrescentadas na rotina e vai-e-vem do bairro. O clima estava bom, frio e nublado. O que não seria tão mal; mas naquele dia em especial, eu queria parecer mais apresentável.
Já fazia um tempo em que o via, quando passava para a padaria, sempre na mesma hora e naquelas roupas largadas de homem recém-acordado. Entrava, pedia um simples, e ficava a ler jornal, meio entretido e emburrado.
Pois, naquele dia, resolvi que iria dar uma passada, apenas para ver se acontecia algo. Eu queria que acontecesse, em verdade. A chuva que começou minutos antes de eu sair obrigou-me a vestir a capa e levar a sombrinha. Pus o dinheiro para o pão e o café na bolsa e caminhei, até um pouco depressa, com certa expectativa e aquele frio na barriga que só adolescentes apaixonadas sentem.
A entrada triunfal não foi exatamente como eu planejei, culpa da sombrinha que sempre teima em travar quando eu tento fechar. Provavelmente todos devem ter me olhado; morri de vergonha, sorrisinho para disfarçar.
Passei lentamente a vista por todo o lugar, lá estava ele. Olhava para mim, talvez a pensar no barulho que tinha causado. Era a primeira vez que via seus olhos assim, de frente. Mais lindos que de perfil. Eram grandes, muito grandes, e castanhos. Por ser assim, acho, expressavam um misto de tristeza e susto. O seu cabelo estava seco e despenteado, mas os cachinhos ficavam tão bem envolvendo seu rosto pálido, torna impossível não o achar charmoso de uma maneira diferente e encantadora.
Ele me encantou. Reparei então que o olhava demais, tiro um lenço da minha bolsa para disfarçar, secando algumas gotas de água na minha testa. Sentei na cadeira perto do balcão e pedi a promoção do dia mesmo, servia qualquer coisa.
Tomo um gole do expresso e vejo-o caminhando em minha direção, um tanto agitado, deixando o jornal esquecido. Silêncio dentro de mim, coração gelado, calor subindo. Mas minhas mãos soaram em vão, e ele passou em passos rápidos por entre as mesas, e por todos na rua.
Não esperava por essa saída repentina, mal tive tempo de testar sua reação, se o olhasse... Mas ainda estava cedo e continuei sentada, sentindo o gosto amargo do café e da pequena decepção. Porém amanhã é um novo dia, e talvez eu tenha coragem de dizer... Ou não, é isso, não troco mais meu pão de queijo por você.  C 

Um comentário:

Gabriel Camboim disse...

Um tanto revoltada, essa cronicake é diferente das outras. Gostei.