Ele queria me beijar. E seria um dia perfeito para isso. Um daqueles em que o ar é agradável, o sorriso sincero e lá fora chuvoso. Há algumas semanas eu o visitava no trabalho e batíamos um papo legal sobre sexo, passado e estudos. Com o tempo tudo foi fluindo para amores, futuro e livros. E ríamos, e brigávamos. E me encantava com seu charme, seu sorriso rasgado e a pele branca. Sempre tive queda por peles brancas. Deve ser culpa dos opostos.
Não, eu não tentava seduzir ou até mesmo conquistá-lo. Talvez a idéia tenha se passado por minha cabeça duas ou três vezes, nada sério e nunca posto em prática. Eu precisava de um amigo. Um desses que veem filmes e pipocas, choram no ombro do outro, fazem inglês, tudo juntos. E apesar de querer que fosse ele, ainda as idéias afloravam. Idéias que envolviam beijos, toques, com sabor de sorvete de morango.
E por isso ou talvez não, continuava indo vê-lo, naquela salinha gelada com treze graus. Censurando-me as vezes por desejar aquecer minha mão em seus cabelos pretos, e o coração perto de seu peito largo e levemente definido em uma blusa branca.
Já havia me acostumado a contar as coisas não tão interessantes da minha vida a ele, e dos meus romances, que eram e ainda são como montanha russa: altos e baixíssimos.
Subi as escadas naquele dia, sem ninguém. Meu ficante-meio-sério tinha entrado para uma seita religiosa sem sexo e estava querendo virar santo (pelo menos era a desculpa que eu rinha dado para mim) e me largado sem dó, coisa que um santo não faria.
Pedi para ele sair da sala para conversarmos melhor. Ele saiu, e eu o abracei. O desgraçado acabou comigo. E como você ta? Ta chorando? Não. Ei, olhe para mim.
Mas eu não queria olhar, eu não sentia mais tristeza. Sentir seu corpo perto do meu me desconcentrou. Era tão aconchegante, cheirava tão bem. Apoiei meu rosto em seu ombro e desejei permanecer ali para sempre. Dá para ficar quieto e me abraçar? Estava claro que aproveitava do seu calor irresistível. Mas ele não se importou, esperou apenas.
Eu podia te fazer uma visita um dia desses. É, talvez. Meu flerte era visível, assim como seu sorriso. Por um breve momento fiquei perto da parede, sua mão na minha cintura. Cinco segundos suspensos no ar. Ele queria me beijar. Ao contrário, se afastou, saindo do momento. Preciso voltar para o trabalho. Tudo bem. Quis pará-lo, segurar seu rosto, dedilhar sua pele macia. Apenas aceitei a verdade, seriamos amigos. E os cinco segundos, o sorvete, o filme e o ombro, nunca mais. C
Um comentário:
O preço que se paga por alimentar as coisas num ponto que não tem como reparar, é amargo. Tentar o improvável ou ser frio e encarar a realidade? Dúvida amarga também.
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