- Bom dia - a senhora respondeu, já refletindo, como de costume, sobre a pobre menina, Clarice. Lá ela ia, rua abaixo, usando um típico e conhecido tubinho preto, salto alto e o cabelo sempre preso. Desde que foi morar naquela pequena, mas confortável pensão, ninguém nunca havia visto o longo cabelo, talvez nem longo fosse.
Gente amabilíssima vivia ali, na pensãozinha da Rua 37. Apenas seis apertados quartos e moradores tipicamente simples, na existência de suas vidas normais. Mas o Sr. Haroldo estava indo embora da pensão, coitado, a esposa adoecera e só havia tratamento para sua doença no Rio de Janeiro, abandonaram tudo aqui, buscando tratamento, nem filhos tinham - A velha pensava, fuxicando internamente.
Já longe da pensão e dos comentários individuais, estava a moça. Ela sabia que o senhor iria mudar-se, sentia muito por ele, mais ainda pela mulher. Cada um com sua vida e os problemas que vem junto. "E tenho muitos, de brinde". Pensou e riu-se. Tinha humor e agüentaria o que viesse. "Mas estou tão só, sem tempo, sem amor... Amor... Que não vale nada". No fundo acreditava na felicidade a dois, para outros.
Apesar de querer para si.
A verdade é que nunca havia pensando em como seria sua vida, tinha um trabalho, um lugar para morar, já havia terminado a faculdade, e ainda era nova, o que significa um caminho inteiro pela frente.
Por um lado mais pessimista, odiava seu trabalho, não tinha uma casa própria, sequer atuava no que se formou. E quanto ao caminho, trilhava sozinha, e já fazia um bom tempo. Mas que mania essa de querer! Tinha que se contentar.
- Jesus está voltando! – disse um senhor entregando-lhe um panfleto. Segurou por educação, dobrou e o manteve na mão. Não gostava de jogá-los sem ao menos ler.
Em pouco tempo chegou ao trabalho. Como sempre a primeira, para abrir a clínica de odontologia. Trancou a porta, ligou o ar-condicionado, a televisão, o computador. Organizou as revistas em cima do balcão, colocou mais café na máquina e sentou-se. Respirou fundo o cheiro da sala – cheiro de médico, já estava acostumada – preparando-se para abrir a lista de ‘consultas de hoje’. Então viu o papelzinho em cima da mesa, pegou para ler antes, porém mudou de ideia e jogou no lixo. C
Nenhum comentário:
Postar um comentário